Dados apurados pela SP Negócios constataram que o turismo de saúde já movimenta R$ 62,9 bilhões por ano – puxados especialmente por São Paulo como principal centro no Brasil -, contudo, a evolução do País como referência entre os destinos mais buscados para a realização de tratamentos de saúde e procedimentos cirúrgicos ainda esbarra na lentidão do setor público para estabelecer uma política pública focada em promover o setor. Essa foi uma das conclusões após dois dias de muita informação e debates entre alguns dos principais especialistas da cirurgia plástica estética e gestão clínica e hospitalar reunidos no BAPS Summit Turismo de Saúde 2026, primeiro evento realizado pela Associação Brasileira de Cirurgia Plástica Estética (BAPS) para discutir obstáculos e estratégias do mercado.
Como pontua o cirurgião plástico Eduardo Ferro, Diretor-Presidente da BAPS, o setor privado e os médicos têm feito suas partes nos últimos anos, mas precisam da contrapartida do poder público para realmente estruturar a rede necessária ao turismo de saúde. “No Brasil, temos excelência médica para cuidar do paciente do pré aos pós-operatório, bem como hospitais e clínicas com nível de segurança acreditado por entidades dedicadas a medir esse parâmetro. Contudo, outros setores precisam acompanhar essa evolução como transporte, segurança, entre outros”, ressalta.
Turismo de saúde carece de política pública
Contudo, mais do que um setor aquecido, trata-se de uma realidade que diz respeito a todos os brasileiros, como mostra a experiência do médico cirurgião plástico, palestrante e embaixador do BAPS Summit Turismo de Saúde 2026, Armando Teixeira. “Quando minha filha tinha apenas quatro meses de vida, recebemos o diagnóstico de que ele precisava realizar uma cirurgia cardíaca e que só encontraríamos especialistas para esse tipo de procedimento em São Paulo”, relata. A experiência pessoal se transformou em motivação para que o cirurgião oferecesse a melhor experiência aos pacientes que vêm de outras cidades, Estados e países em busca de uma cirurgia estética.
Mesmo diante desses números, o levantamento da SP Negócios mostra que 60% dos representantes públicos ainda afirmam que o tema do turismo de saúde precisa amadurecer internamente. Em contrapartida, países que são destaque no cenário global mostram realidades diferentes. Por exemplo, Turquia e Emirados Árabes estabeleceram sistemas para estruturar a jornada do paciente, México criou uma certificação nacional para reconhecer profissionais e hospitais e a Colômbia articulou a formação de redes de atendimento de saúde.
Turismo de saúde depende de um ecossistema
Para o cirurgião Ícaro Samuel, Diretor de Planejamento da BAPS, é preciso entender que o paciente estrangeiro que decide viajar até outro país para passar por uma cirurgia ou tratamento não baseia essa decisão apenas no médico, mas em todo o ecossistema em volta dele. “É evidente que tudo começa com o cirurgião, mas a paciente precisa se sentir segura o suficiente para deixar seu ambiente e ir a outro país se colocar em uma situação de tanta vulnerabilidade. Isso exige uma rede muito bem estruturada, com integração total entre os setores público e privado”, pontua.
De fato, entre os temas centrais debatidos, destacou-se a necessidade urgente de criar ecossistemas integrados de cuidado nas cidades que já são polos médicos: atendimento bilíngue, redes de hospedagem pós-operatória adaptadas, serviços de concierge e continuidade assistencial após o retorno do paciente ao país de origem. Por outro lado, dados da Medical Tourism Association (MTA) sinalizam que a preocupação com fatores estruturais como segurança, transporte e hospedagem estão entre as principais preocupações entre estrangeiros, com pelo menos 51,9% dos pacientes ouvidos mencionando esse aspecto como ponto fundamental na decisão.
Para Eduardo Ferro, o Summit foi apenas o primeiro passo de um movimento maior. “Todas as capitais precisam promover esse debate expandindo esse movimento e, principalmente, estreitando o diálogo com representantes do poder público para assumirem papel ativo na estruturação das cidades que já funcionam como centros médicos de referência no país”, ressalta. Para ele, é necessário seguir o exemplo de outros países para transformar o turismo de saúde em política pública.
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