Biotecnologia e ações sustentáveis sinalizam futuro do setor de cosméticos no Brasil

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O acelerado amadurecimento do mercado de cosméticos em sustentabilidade, incluindo não apenas as iniciativas de empresas e fornecedores, como também o interesse dos consumidores em produtos que agregam mais valor e geram menor impacto ao meio ambiente, está transformando toda a cadeia produtiva e reforçando a biotecnologia, entre outras ações de clean beauty, como futuro do setor.

Para Luciana Navarro, cofundadora da Care Natural Beauty, “o conceito de biotecnologia é a tendência que irá nos salvar e significa encontrar um ativo natural que entrega performance e replicá-lo em laboratório de forma limpa e com padrão de qualidade. Trata-se de encontrar a molécula natural que traz o benefício, utilizar a tecnologia que temos atualmente e reproduzir de uma maneira segura, sem toxinas para entregarmos um produto estável”.

Não é de hoje que a tecnologia, aliada aos benefícios dos produtos naturais que estão mobilizando o setor, das indie brands às grandes empresas, que cada vez mais optam por crescimento de mercado através de uma produção que não agrida ao meio ambiente. “Iniciamos em 2017 e, na época, tínhamos que importar matérias-primas da Itália. Tínhamos no portifólio apenas 12 skus, atualmente temos 90. Iniciamos como startup e recentemente recebemos investimentos de uma grande farmacêutica que acredita em sustentabilidade. Dessa forma, nos tornamos a primeira empresa de capital aberto de cosméticos limpo”, conta Vanessa Kope, head de sustentabilidade e expansão da Simple Organic, que ainda acrescenta que, devido ao avanço do mercado nacional, a produção de cosméticos limpos está mais fácil para quem está começando atualmente.

Apesar dos avanços em tais iniciativas e mesmo com o perfil de cliente mais interessado em encontrar valores relacionados à compromissos socioambientais nas marcas, ainda existe um tabu a ser superado: o preconceito de parte dos consumidores. “Ainda existe um preconceito sobre os produtos naturais. Alguns acham que é feito de modo caseiro, quando na verdade é o contrário, envolve muito estudo, muita tecnologia, para entregar performance incrível”, aponta Navarro.

Uma das empresas que tem o trabalho reconhecido mundialmente em sustentabilidade é a Natura&Co, que vem desenvolvendo processos operacionais e itens visando os impactos ambientais e objetivando a emissão zero de carbono. De acordo com João Teixeira, gerente de sustentabilidade do grupo, o desenvolvimento de um produto com carbono neutro envolve inovação dos materiais, por meio da união de ciência e natureza, uso de calculadora ambiental para melhores escolhas; utilização de matérias-primas sustentáveis e embalagens ecológicas, economia regenerativa para manutenção da natureza, avaliação da logística e compra de crédito de carbono.

“A partir de uma metodologia os pesquisadores avaliam a quantidade de carbono envolvida no processo, aumento do percentual de biodegrabilidade, ou vegetalização de alguma fórmula e, assim, conseguimos comparar com o portfólio anterior para ver o quanto estamos melhorando nossos produtos em termos ambientais. Isso parte da escolha de matérias-primas sustentáveis, que olham muito para a economia regenerativa e como a gente contribui para a manutenção da floresta em pé, utilizando, principalmente, os insumos da biodiversidade, agregando e gerando valor para a economia da Amazonia”, explica o especialista.

Como exemplo, o especialista cita a linha Biome, com condicionador, shampoos e sabonetes em barras, de alta performance e zero plástico, que possibilitou a redução em 2 vezes da utilização de caminhões na logística e 62 vezes a água na composição dos shampoos e uso de embalagens feitas em material reciclado e renovável, integrando uma redução de carbono significativa. Além disso, o produto faz parte de um projeto piloto que é Sistema Agroflorestal (SAF), desenvolvido para o cultivo do óleo de palma, ingrediente utilizado nas formulações dos produtos.

“É um sistema que temos estudado há muito tempo, em que primeiramente validamos toda a viabilidade econômica, que é um modelo consorciado envolvendo todas as espécies comerciais que não só a palma, temos pimenta do reino, cacau, e diversas outras espécies comercializadas pelos produtores e que, efetivamente, o rendimento por hectare é maior na comparação com o monocultivo. Além de economicamente viável, é socialmente responsável, já que inclui bastante mão de obra, então gera bastante emprego e contribui de forma importante para a economia local, além de ser ambientalmente regenerativo. Estamos buscando áreas degradadas para a aplicação deste modelo”, explicou Teixeira.

A sustentabilidade foi destaque da feira in-cosmetics Latin America, evento voltado para profissionais que atuam na formulação de cosméticos, na sequência de painéis que destacou os impactos das mudanças climáticas no setor, com curadoria Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), e com as participações do gerente de sustentabilidade da Natura&CO entre outros executivos.

Foto: KB Comunicação